O cenário eleitoral brasileiro de 2026 revela uma escalada preocupante na hostilidade contra candidatas. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontam que os processos por violência política de gênero saltaram de 15 para 177 entre 2022 e 2026, um crescimento de 11 vezes. O fenômeno ganha contornos ainda mais críticos neste mês, marcado pelo Dia Nacional de Luta contra a Violência à Mulher, data que remete ao protesto histórico de 1980 nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo.
Aumento das agressões no ambiente eleitoral
Levantamentos realizados pela Terra de Direitos e pela Justiça Global indicam que, até o primeiro turno das eleições, ocorrido no último domingo (4), foram registrados 134 casos de violência política. A estatística revela uma frequência alarmante: um episódio de agressão a cada nove horas. Deste total, 70 tiveram mulheres como vítimas, o que corresponde a 52,2% dos registros. Mesmo ocupando cerca de um terço das candidaturas, o público feminino é o alvo principal de ataques verbais, físicos e ameaças.
A Central de Atendimento à Mulher, o Disque 180, corrobora a gravidade do quadro com 1.564 denúncias registradas apenas entre janeiro e agosto de 2026. O recorte racial demonstra que mulheres pretas e pardas são as mais atingidas, somando 842 casos, seguidas por 590 denúncias envolvendo mulheres brancas. Organizações da sociedade civil já formalizaram a entrega de um dossiê ao TSE contendo relatos de ameaças de morte e estupro contra candidatas.
O caso da deputada Ana Elisa
A trajetória da deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG) ilustra a dimensão das ameaças enfrentadas por mulheres no poder. Aos 21 anos, a parlamentar denunciou à Polícia Civil uma série de ataques que incluem mensagens de cunho machista, racista e ameaças diretas de violência sexual. Além da intimidação, houve a exposição de dados sensíveis, como seu endereço residencial e contatos pessoais.
A gravidade das ameaças forçou o partido a contratar segurança armada para garantir a integridade física da parlamentar. Ana Elisa, que obteve 524.219 votos, tornou-se a mulher mais votada na história de Minas Gerais para a Câmara dos Deputados e a parlamentar mais jovem já eleita no Brasil para o cargo. O episódio reflete a tentativa de desestabilizar a presença feminina em espaços de decisão política.
Perspectiva estrutural da misoginia
Para Sandra Kennedy, secretária Nacional de Articulação Intersetorial e Interfederativa e Participação Política do Ministério das Mulheres, o cenário não é isolado. A gestora associa a violência política a um fenômeno mais amplo de exacerbação da misoginia e do feminicídio na sociedade patriarcal. Segundo ela, essas agressões são questões estruturais que visam, muitas vezes de forma velada, desestimular a participação feminina na vida pública.
O histórico de violência contra mulheres na política brasileira é marcado por episódios graves, como o assassinato da vereadora Marielle Franco em 2018 e casos de importunação sexual, como o sofrido pela deputada Isa Penna na Assembleia Legislativa de São Paulo. A recorrência desses fatos, somada à retirada de escoltas de segurança de parlamentares ameaçadas, como Talíria Petrone, reforça a necessidade de medidas mais rigorosas de proteção e combate à impunidade. Mais informações podem ser consultadas no portal oficial do Tribunal Superior Eleitoral.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br


