Violência política no Brasil atinge recorde e mulheres são as principais vítimas

Violência política no Brasil registra 134 casos no primeiro turno de 2026. Mulheres são as principais vítimas, enfrentando ameaças, racismo e misoginia.
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O cenário eleitoral brasileiro de 2026 revela um aumento preocupante nos índices de hostilidade contra agentes públicos e candidatos. Dados compilados pelas organizações Terra de Direitos e Justiça Global apontam que, durante os 50 dias de campanha do primeiro turno, o país registrou 134 episódios de violência política. O levantamento indica uma frequência alarmante de um caso a cada nove horas, consolidando um ambiente de risco para o exercício da democracia.

As mulheres ocupam o centro dessa estatística, sendo o alvo principal das agressões. Embora representem cerca de um terço das candidaturas, elas foram vítimas em 70 dos 134 episódios mapeados, o que corresponde a 52,2% do total. Entre os candidatos, a disparidade é ainda mais acentuada: das 102 ocorrências dirigidas especificamente a quem disputava um cargo, 60 tiveram mulheres como alvos, totalizando 58,8% dos casos.

A prevalência da violência de gênero e o impacto digital

A violência política de gênero atua como uma ferramenta de intimidação, visando desqualificar a presença feminina nos espaços de poder. Segundo Gisele Barbieri, coordenadora de Incidência Política da Terra de Direitos, o ambiente digital tornou-se um terreno fértil para agressões sistemáticas. A ausência de uma regulação eficaz nas redes sociais é apontada como um entrave para conter o avanço dessas práticas, embora a maior parte dos registros (71 casos) tenha ocorrido em espaços físicos, como as ruas.

O impacto dessas ações é profundo, gerando um efeito pedagógico negativo que afasta novos quadros da vida pública. A pesquisadora enfatiza que a falta de respostas céleres por parte do Estado contribui para a subnotificação, já que muitas vítimas evitam denunciar por medo de represálias ou pela percepção de impunidade. Até o encerramento da coleta de dados, nenhum dos 134 episódios registrados resultou em punição definitiva aos agressores.

Tipologia das agressões e o perfil das vítimas

O levantamento detalha uma hierarquia de violência, onde a ameaça surge como a modalidade mais recorrente, com 64 casos registrados. O cenário inclui ainda 33 episódios de ofensa, 19 de agressão física, 11 atentados, cinco casos de criminalização e dois assassinatos. As mortes vitimaram um vereador e um secretário municipal, evidenciando que a violência não se restringe apenas às esferas estaduais ou federais.

A interseccionalidade das agressões revela que o preconceito estrutural acompanha a disputa política. Entre os 70 episódios contra mulheres, 45 foram motivados por machismo ou misoginia, nove por racismo e cinco por transfobia. Além disso, pessoas negras representaram 44,8% do total de vítimas. Glaucia Marinho, coordenadora da Justiça Global, reforça que mulheres, pessoas negras e trans enfrentam camadas adicionais de violência que refletem as desigualdades históricas da sociedade brasileira.

Desafios para a integridade do sistema democrático

O crescimento da violência política, que foi cinco vezes mais frequente durante o período eleitoral do que em épocas sem disputa, exige uma resposta firme das instituições. A análise dos dados mostra que 19,4% dos autores identificados eram agentes públicos, incluindo parlamentares e membros das forças de segurança. A gravidade da situação demanda, segundo especialistas, uma força-tarefa estatal capaz de oferecer proteção e responsabilização imediata.

Embora medidas de urgência, como a remoção de conteúdos em redes sociais e a concessão de medidas protetivas, tenham sido aplicadas em oito casos, a equipe de pesquisa ressalta que tais ações interrompem o ciclo momentâneo, mas não garantem a justiça. A persistência desse clima de hostilidade, conforme aponta a Agência Brasil, coloca em risco a pluralidade e a segurança necessárias para o pleno funcionamento do sistema democrático nacional.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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