O ex-governador Sérgio Cabral publicou, nesta sexta-feira (9), uma carta aberta endereçada a Douglas Ruas, recém-eleito chefe do Executivo fluminense. O texto, veiculado no jornal Correio da Manhã, marca um movimento de interlocução política ao parabenizar o sucessor e oferecer diagnósticos sobre a gestão estadual, baseados nos oito anos em que esteve à frente do Palácio Guanabara, entre 2007 e 2014.
Embora tenha declarado não possuir proximidade pessoal com o governador eleito, Cabral utilizou o espaço para revisitar marcos de sua administração e estabelecer um contraponto direto sobre as diretrizes de segurança pública que devem nortear o próximo mandato.
Defesa das UPPs e a metodologia de ocupação territorial
O ponto de maior divergência na missiva refere-se às táticas de combate ao crime organizado. Douglas Ruas defende a estratégia de não anunciar previamente o ingresso de forças policiais em áreas conflagradas, visando impedir a fuga de criminosos e o vazamento de informações estratégicas. Em contrapartida, Cabral defendeu a metodologia das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), implementadas a partir de 2008.
O ex-governador argumentou que o aviso prévio das incursões operacionais tinha como finalidade primordial a preservação de vidas. Segundo ele, o modelo de pacificação reduziu os confrontos armados, devolveu a liberdade de circulação aos moradores e viabilizou a entrada de serviços públicos, agências bancárias e novos comércios em comunidades anteriormente dominadas por facções ou milícias.
Legado administrativo e escolhas estratégicas
Ao rememorar sua trajetória, Cabral destacou a importância da montagem de uma equipe técnica qualificada. Ele citou nomes como Joaquim Levy, na Fazenda, e José Mariano Beltrame, na Segurança, como peças fundamentais para a estabilização do estado após a crise financeira enfrentada em 2007.
O ex-gestor também elencou realizações que, em sua visão, definiram sua administração, incluindo a melhoria no Ideb, a criação das UPAs 24 Horas, a construção do Arco Metropolitano e a expansão da malha ferroviária. Além disso, relembrou a implementação do Bilhete Único Intermunicipal e a articulação para a realização dos Jogos Olímpicos de 2016.
Perspectivas para o futuro do Rio de Janeiro
Na conclusão da carta, Cabral teceu críticas aos governos que sucederam sua gestão, classificando o cenário atual do estado como grave. O ex-governador aproveitou o tom conciliador para mencionar um detalhe simbólico: a entrada de Douglas Ruas nos quadros da Polícia Civil ocorreu por meio de concurso público realizado durante seu período no governo.
O conselho final ao novo governante enfatizou a necessidade de autonomia para o secretariado. Ao desejar sorte ao sucessor, Cabral reforçou o pedido para que o novo gestor lidere uma equipe capaz de devolver ao Rio de Janeiro o protagonismo nacional, priorizando o bem-estar da população fluminense.



