A estagnação ou eventuais reduções no valor dos benefícios sociais e previdenciários têm o potencial de provocar uma retração severa na atividade econômica dos municípios do interior do Brasil. O alerta é o principal apontamento de um levantamento recente divulgado pelo Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), vinculado à Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP).
De acordo com a pesquisa, programas de transferência de renda como o Bolsa Família, além de aposentadorias e do Benefício de Prestação Continuada (BPC), possuem um peso determinante na engrenagem financeira dessas localidades. Em muitas cidades situadas fora das grandes capitais e regiões metropolitanas, essas transferências chegam a responder por quase metade do orçamento doméstico das famílias de menor renda.
O papel vital do consumo local
Como os recursos repassados pelo governo são direcionados quase integralmente à aquisição de itens essenciais para a sobrevivência diária, o dinheiro injetado retorna de forma imediata para o comércio da região. Essa circulação rápida de capital atua diretamente na manutenção de postos de trabalho e garante a arrecadação de tributos essenciais para os governos municipais.
O levantamento aponta que, do total de municípios do país, a grande maioria está localizada fora dos grandes centros urbanos. Nessas regiões do interior, o impacto econômico relativo das transferências públicas chega a ser o dobro se comparado ao verificado nas capitais, evidenciando a dependência estrutural dessas economias em relação à rede de proteção social.
Projeções e impactos regionais futuros
Para estimar os rumos da economia nos próximos anos, os pesquisadores compararam o cenário recente de ganhos reais nos benefícios com um panorama de congelamento ou ausência de valorização acima da inflação. Sem os reajustes, a renda agregada do interior brasileiro poderia sofrer uma queda expressiva, distanciando-se consideravelmente do patamar alcançado com a política de valorização.
Os reflexos dessa retração econômica variam conforme a região geográfica analisada. Enquanto estados das regiões Sul e Sudeste poderiam registrar impactos mais moderados, áreas do interior nordestino e de outras regiões com menor dinamismo econômico autônomo enfrentariam reduções drásticas na renda total das famílias, desencadeando um efeito cascata sobre todo o setor de comércio e serviços local.
Consequências diretas no combate à pobreza
Além da dimensão estritamente macroeconômica, o estudo reforça que a estabilidade dos auxílios e da previdência funciona como a principal barreira contra o avanço da miséria. Para parcelas expressivas da população que sobrevivem com rendimentos muito baixos, qualquer perda de poder de compra significa o empurrão definitivo para situações de extrema vulnerabilidade social.
Simulações estatísticas incluídas no levantamento indicam que a ausência de ganhos reais nos repasses públicos em períodos passados teria deixado milhões de pessoas adicionais abaixo da linha da pobreza no interior do país. Diante desse cenário, especialistas defendem que a continuidade da política de valorização é indispensável tanto para a preservação da dignidade humana quanto para a sustentabilidade financeira do comércio em grande parte do território nacional.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br



