A relação entre religião e política no Brasil atravessa um momento de tensão e redefinição. Embora evangélicos e católicos permaneçam no centro das estratégias eleitorais para 2026, uma pesquisa recente revela um distanciamento significativo entre a base dos fiéis e a politização dos espaços sagrados. O levantamento, realizado pelo Instituto de Estudos da Religião (Iser) em parceria com a Quaest Pesquisa e Consultoria, aponta que a maioria dos brasileiros é contrária à transformação de templos em palanques eleitorais.
O pastor Lucas Oliveira, que atua em uma igreja batista na Baixada Fluminense, resume o sentimento de parte da comunidade religiosa ao afirmar que o voto deve ser uma prerrogativa do cidadão, e não uma imposição da instituição religiosa. Esse posicionamento reflete uma mudança de comportamento observada nas bases, onde o trauma causado por divisões internas em pleitos anteriores gerou um movimento de resistência contra a interferência direta de lideranças nas escolhas políticas dos fiéis.
A rejeição à politização nos templos
Os números da pesquisa Iser/Quaest são contundentes ao demonstrar a resistência dos fiéis. Aproximadamente 83% dos entrevistados posicionam-se contra a indicação de voto por parte de pastores e padres, enquanto 82% rejeitam a discussão de temas políticos durante a realização de cultos e missas. Além disso, 90% dos participantes declararam ser contrários à condução de campanhas eleitorais dentro dos espaços religiosos.
Essa rejeição não implica, contudo, um afastamento total entre fé e política. A pesquisadora Lívia Reis, do Iser, explica que a influência política migrou da transferência direta de votos para a formação de valores e identidades. Segundo a especialista, o fenômeno atual é de mediação religiosa, onde a política é debatida fora do púlpito, em esferas onde a influência das lideranças ocorre de maneira mais difusa e menos institucionalizada.
A transição para o ambiente digital da fé
Com o esvaziamento da política dentro dos templos, o debate migrou para o ecossistema digital. A pesquisa aponta que 66% dos entrevistados utilizam o WhatsApp como principal ferramenta de articulação de comunidades e grupos religiosos. Esse ambiente permite que mensagens políticas circulem entre fiéis através de influenciadores, grupos de família e redes de confiança, contornando a formalidade e a exposição do púlpito.
Para muitos líderes religiosos, essa migração é uma resposta ao desgaste provocado por campanhas intensas em anos anteriores. O pastor Moisés Blanco, da Igreja Batista Peregrina, destaca que a preocupação com a separação entre Igreja e Estado é parte da gênese protestante. Ele integra a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, movimento que busca preservar a autonomia dos templos frente às pressões de agendas políticas externas.
Radiografia da fé no Brasil contemporâneo
O estudo, que ouviu 15 mil pessoas em 412 municípios brasileiros, oferece um retrato detalhado da diversidade religiosa no país. O segmento evangélico compreende hoje 29% da população, com uma predominância de 70% de pentecostais. A Assembleia de Deus permanece como a maior denominação, reunindo 32% dos evangélicos, seguida por uma vasta gama de igrejas menores que compõem o restante do cenário.
Já o catolicismo, que engloba 50% dos brasileiros, apresenta uma divisão interna entre praticantes e não praticantes. Enquanto os praticantes mantêm hábitos de engajamento semanal similares aos evangélicos, a religião como um todo tem buscado se adaptar às novas tecnologias e ao consumo de entretenimento religioso. Esse cenário complexo demonstra que, embora a política tente capturar o voto religioso, a base dos fiéis mantém uma distinção clara entre sua prática de fé e o exercício do voto.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br


